dezembro 02, 2003

"Então adeus e boa noite."

Era Julho e o calor fazia-se sentir.
As semanas passavam a passos largos. Bem mais rápido do que gostaríamos, os dias encavalitavam-se uns atrás dos outros, sempre na esperança de uma visitinha à praia, para acalmar o calor que tanto incomoda quando se tem de trabalhar!
As noites sucediam-se na vontade de uma visitinha ao Bairro (Alto, claro!) para acalmar a sede e o stress que o dia nos ofereceu, no seu decorrer lento e acelerado, sempre na razão contrária à nossa vontade.

As hormonas fervem e os corpos reagem. Os não comprometidos procuram e também são procurados. Os comprometidos por vezes ressentem-se por não procurarem, sendo procurados ou não.

Iniciam-se relações e... terminam relações. Os amigos encontram-se. Trocam-se algumas palavras.
:( A situação não está fácil!
:) Vamos beber um copo

O Marraquexe entreabre as suas cortinas e desvenda, à velocidade a que os olhos se habituam da pouco mais do que penumbra que caracteriza o ambiente, os mistérios da sua existência. Ainda é cedo. Existem várias mesas livres. Os amigos (2) sentam-se.
Depois de satisfeita a curiosidade em relação ao que os rodeia, olham com desconhecimento de causa para a lista de bebidas.

Estão ali para purgar. Purgar o coração de um dos dois. Purgar pelo menos o nó de alma que o tem acompanhado e impedido de dormir nas últimas noites. Resolvem partir a loiça.
:( O que vais beber? Olha-me só o chazinho de menta!
:) Olha, vamos mas é pedir um cachimbo de àgua
:( O melhor é dar-lhe forte e feio
Pedem duas cervejas.
O marroquino de serviço é rápido e quase não dá tempo à conversa, que depois do Obrigado é retomada. Conversam, partilham, compreendem e são compreendidos, como só dois amigos podem fazer (e talvés duas amigas também), observam em redor que o marraquexe faz juz ao seu mistério. Já não há mesas vagas.

As idades variam e o género é misto e equilibrado. Os mais recentes inquilinos da mesa do lado lá pedem o afamado cachimbo de àgua, que o marroquino de serviço transporta e deposita na mesa que lhes corresponde. Eles fumam.
:( Sempre fumamos uma cena daquelas?
:) Não sei! Eu quase não fumo, não sei se dou conta daquilo...
:( Vamos mas é ver o que se passa ali para cima. Pode ser que haja música.
:) Vamos então. Amanhã trabalha-se e já não é cedo. Bebemos um vinho da pedra e depois se verá.

A noite convida à continuação sem tréguas. O Hoje não dura para sempre e a escuridão é a melhor companheira da reflexão boémia a que os amigos se entregaram. No Tejo brilham as luzes que o acompanham no seu desfile a ritmo certo de trajecto bem definido. O céu está limpo. Não há Lua.

Descem ao último e recondido patamar. Hoje não há jazz de improviso. É pena! Mas o vinho da pedra não falta ao encontro. O ambiente é agradável como sempre e os estilos dispersos e distantes formam o tão aconchegado clima que se sente.
As ideias fluem agora muito mais facilmente e trocam-se de forma gratuíta enquanto sentados em duas antigas cadeiras de barbeiro, que fazem agora as vezes de sofás de bar.

Não satisfeitos com a imobilidade deslocam-se, em contemplação, pelo sempre enganador amplo espaço. Ainda bem que o fazem.
No final de uma serpente de fotografias, intercaladas de cartazes que anunciam a inauguração da exposição e o arranque de uma nova associação cultural, está Ela.

Ambos a conhecem. Aliás, todos os presentes a conhecem! Mas de certeza que nem todos notaram a sua presença.
Ela é inexplicavelmente Bela. Ela é inexplicavelmente Humana.
Ela é simplesmente Ela. Sem vestidos de estilistas famosos e sem truques de câmara.

Tem amigos comuns, gordos, magros, bem ou mal arranjados, com ou sem noção de estética, mas de certeza muito interessantes, como qualquer comum, como os 2 que entre estórias, comentários e desabafos a olham, de quando em vez e sem a querer incomodar, na tentativa de guardarem para si um pormenor, um detalhe, um tique, um sorriso, que não tenham estado dominicalmente acessíveis.

Ela despede-se. A frivolidade desta adoração unilateral quebra-se fragilmente. Ela prepara-se para ir embora. E embora tentem, não parece possível disfarçar o interese em captar uma réstia final do seu encanto, da sua presença.

O Palco é dela. Passa pelos dois e sorrindo-lhe com a sua natural simpatia diz:
Então adeus e boa noite.

A noite continua por mais alguns minutos, até que ambos se dão por vencidos. Amanhã trabalha-se. Despendem-se com um até amanhã. Novo dia a enfrentar em breve.

Pelo menos um deles medita, ainda antes de dormir, na simpatia de palavras tão simples quanto inesperadas Então adeus e boa noite.
Agora sim Catarina, tens um novo fan número 1.
Ele fecha os olhos e adormece.

Publicado por Biqsi em dezembro 2, 2003 02:52 AM
Comentários

Ao ler-te senti que estive lá contigo.Tenho dito.

Afixado por: mr.T em fevereiro 12, 2004 04:20 PM

Sentido!

Um esgalhanço literário? Quer uma toalinha?

À vontade!

Afixado por: Comandante em fevereiro 12, 2004 04:21 PM

Ela, Ela, Ela... sempre Ela! Já começo a enjoar de tanto Ela!!!

Afixado por: bloggie24 em fevereiro 12, 2004 04:21 PM

Quantas pessoas te dizem, por dia, Obrigado, Obrigada, Bom, dia, Boa noite, Boa tarde, Então até amanhã? E em quantas destas é que tu pensas antes de domires, quantas preenchem o teu vazio feérico antes de entrares no país dos sonhos? Quantas tu achas Perfeitas e Inigualáveis? Talvez nenhuma, porque nenhuma tem a carita de anjo d'Ela... mas eu acho que a verdadeira beleza está na sinceridade com que se diz uma palavra, uma frase, com que se deixa escapar um sorriso... mesmo que a boca donde este escapa não esteja pintada com baton vermelho e o corpito não esteja coberto com um modelo Cravo&Baltazar...
Todas as pessoas são perfeitamente comuns... umas são apenas mais bonitas que outras, por fora!

Afixado por: bloggie24 em fevereiro 12, 2004 04:22 PM